|
Irmã Reinolda May OSB
Uma Beneditina Missionária na África do Sul
1 Nossa Senhora de Ngome (De: The Benedictines of Inkamana – Fr. Godfrey Sieber OSB - 1994)
No início do século XX, a região de Ngome, cerca de 30 km distante de Nongoma, foi destinada para a produção agrícola comercial. O resultado foi, que fazendeiros brancos compraram as terras e as utilizaram principalmente para pasto do seu gado. Também se aproveitavam da madeira para construções. Famílias de negros podiam arrendar terras e morar nas propriedades desses. A população negra forneceu para os fazendeiros abundante mão de obra. Trabalho missionário entre os negros só podia ser feito nas fazendas com permissão do respectivo fazendeiro branco.
Em 1926, os Beneditinos fundaram um Centro Missionário em Nongoma e, em seguida, várias Casas Filiais no mesmo Distrito, para obter mais cristãos e agregá-los às comunidades. Em 1944 compraram uma fazenda de 338 héctares em Ngome, a qual chamaram de „Fazenda de Ngome“, com o objetivo de ter um suporte financeiro para o Centro Missionário em Nongoma, com sua escola e seu hospital.
Em Ngome foi construída uma pequena escola, chamada de „Mayime School“. Uma sala de aula foi usada como capela, onde os católicos se reuniram aos domingos para a Santa Missa ou para participar de uma Celebração da Palavra, dirigida por catequistas.
 O número dos católicos aumentou progressivamente, até o ano de 1970, quando um novo regime governamental forçou os fazendeiros a reduzir o número dos seus trabalhadores negros e a mandá-los – o excendente - de volta para o Zululândia. Com isto diminuiu, sensivelmente, o número dos católicos negros, que moravam nas fazendas dos brancos,. Em 1978, o número ficou reduzido a metade. Ngome transformou-se numa filial pequena e insignificante, quanto ao número dos cristãos católicos; em 1985 eram apenas 80 e, em 1993, 42. O futuro de Ngome parecia sombrio, se um outro desenvolvimento não tivesse chamado a atenção dos católicos na Zululândia e muito além de suas fronteiras.
A mudança veio em 1981, depois do falecimento da Ir. Reinolda May OSB que trabalhou de 1938 até 1980 como Beneditina Missionária em Nongoma, e da qual se diz que teve aparições de Nossa Senhora, durante este período.
TOP
2. Quem era Irmã Reinolda?
Ir. Reinolda May nasceu em 21 de outubro de 1901, em Pfahlheim, uma pequena aldeia na Diocese Rottenburg, no sudeste da Alemanha. No dia seguinte, foi batizada com o nome de Francisca. Seu pai possuia uma pequena fazenda. O casal tinha 10 filhos, dos quais dois faleceram ainda pequenos. Francisca era a filha mais nova. Após concluir o curso básico de oito anos, entrou num internato de Irmãs Franciscanas, em Hochalting, onde aprendeu artes domésticas.
A aldeia Pfahlheim tinha, naquela época, um Pároco muito ativo. Ele fez tudo para que todos os paroquianos se engajassem em algum apostolado. Jovens e velhos, casados ou não, homens e mulheres, estimulou a praticar a fé e a assumir conscienciosamente os seus deveres na Igreja Católica. Cada Apostolado tinha o seu domingo, no qual todos os membros, em grupo, se aproximaram da mesa da Comunhão. A adoração eucarística, especialmente diante do Santíssimo exposto, e a devoção a Nossa Senhora eram práticas características na aldeia. A festa anual do Padroeira de cada um dos Apostolados da comunidade paroquial foi celebrada com grande solenidade. A participação na Santa Missa era o cume do dia.
Não é de se admirar que num tal ambiente surgisse um grande número de vocações religiosas. Apesar de que, no início do século XX, residissem apenas cerca de mil católicos em Pfahlheim, três dúzias de moças entraram no convento, enquanto Eugen Adis era pároco. Uma delas era Francisca May.
Por Francisca demonstrar grande interesse pelas missões, Padre Adis a aconselhou a entrar com as Irmãs Beneditinas Missionárias em Tutzing. A primeira tentativa falhou. Disseram-lhe que não tinha bastante saúde para ser enviada às missões.
Sendo-lhe negada a entrada, viu-se obrigada a voltar para casa. As pessoas em Pfahlheim ainda se lembram de que, depois da volta, viram-na, com freqüência, durante o dia, na igreja. Deve ter sido algo incomum, senão não teriam registrado o fato. O pai de Francisca não ficou nem um pouco triste. Ele quis que a filha mais nova ficasse em casa. Mas Francisca teve a idéia fixa de se tornar missionária. Assim viajou mais uma vez a Tutzing, e, desta vez, foi aceita.
No dia 1º de março de 1922, entrou com as Beneditinas Missionárias de Tutzing. Proferiu sua Primeira Profissão em 10 de fevereiro de 1925.
Poucos meses depois recebeu a Cruz Missionária para a África do Sul, para onde viajou em 25 de junho. Alí, em 12 de fevereiro de1928, proferiu os Votos Perpétuos. Durante os dez primeiros anos, trabalhou como costureira na Missão de Emoyeni, em Mbongolwane, também durante algum tempo em Inkamana. A língua da região, Zulu, apreendeu com grande decisão e entusiasmo e aproveitou cada oportunidade de visitar os africanos da região, a cavalo ou a pé.
Após a permissão de Roma, dada às Irmãs Missionárias de Tutzing, de poderem assistir a uma parturiente, Ir. Reinolda foi a primeira irmã na Zululândia a fazer um curso de parteira. Em maio de 1938 recebeu o diploma de parteira, num Hospital do Estado.
Quando foi inaugurado o „Benedictine Hospital“, em junho de 1938, Ir. Reinolda recebeu o cargo de enfermeira chefe da maternidade. O início era pesado. O hospital dispunha das mínimas condições de funcionamento. Os zulus ficaram desconfiados e não queriam levar as suas mulheres parturientes ao hospital. O médico da região, também, era contra o hospital, pois, temia perder clientes. Ir. Reinolda sofreu muito com estes impecílios, mas demonstrou grande força emocional e espiritual e nunca ficou desanimada ou desesperada. Como sempre recebeu sua força pela oração. Nos momentos de crise permaneceu longas horas em oração, muitas vezes durante a noite.
Era uma pessoa decidida. Uma vez iniciado um trabalho ou tendo recebido uma tarefa, empreendeu todas as suas energias para fazer o melhor possível. - Foi lhe dada a incumbência de abrir um curso de formação de parteiras. Ela parecia ser a pessoa menos apta para tal função. Não tinha curso superior, já tinha mais de 30 anos de idade, só tinha trabalhado na sala de costura e os seus conhecimentos de inglês eram escassos. Mas, trabalhou duro e conseguiu bons resultados.
Ir. Reinolda era muito auto-disciplinada e equilibrada. Não conhecia pânico em momentos de crise, ficando sempre calma e serena. Pessoas que a conheceram bem, falaram muitas vezes, “ela tem ambos os pés no chão“. Não era uma pessoa passiva, que simplesmente esperava por ordens, ao contrário, era capaz de tomar, ela mesma, as iniciativas. Também possuia o talento notável de tratar de problemas e mostrou-se hábil em encontrar soluções para os mesmos. Suas capacidades criadoras e industriosas, com certeza ajudaram-na a desenvolver sua vida espiritual, especialmente na formulação das orações.
Ficou 39 anos na direção da Maternidade do Benedictine Hospital, até que em 1976 o Governo assumiu o hospital. Mais do que 28.000 partos foram registrados neste período. Sua competência profissional e sua grande experiência no trato do doente, ganharam o respeito e a admiração de todos os médicos que trabalharam com ela. Eles afirmaram, que era tranqüilizante a presença da Ir. Reinolda na sala do parto, em situações críticas. Ela mesma, porém, era sempre modesta, e nunca se projetou por causa de seus sucessos.
No decorrer dos anos, Ir. Reinolda se tornou a missionária mais conhecida na região. Os zulus, que gostam de apelidar uma pessoa com alguma mania ou defeito físico, deram-lhe o apelido de „Mashiyane“, por causa de suas sobrancelhas espessas.
Não somente a fama como parteira tornou-a popular em todo o distrito de Nongoma, mas também o seu interesse sincero pelo bem-estar das pessoas. Era mansa, amável, sensível, especialmente com aquelas pessoas que a nossa sociedade marginaliza: as crianças, os deficientes e doentes, e aqueles que a vida trata com dureza. Isto facilitou-lhes aproximar-se da Irmã e de lhe abrir o coração. Para muitos pacientes do Benedictine Hospital, Irmã Mashiyane era não somente uma enfermeira competente, mas também uma mãe compreensiva e solícita. Após anos, ela mesma ainda se lembrava dos seus nomes e se informava pelo seu bem-estar e se precisariam de alguma ajuda.
 Ir. Reinolda era animada por um zelo missionário extraordinário. Sentiu-se impulsionada a visitar os Zulus em suas cabanas, olhar pelos idosos e doentes que não podiam ir a igreja, de instruir catecúmenos e de preparar crianças e adultos para os sacramentos. Fez estas visitas a pé ou a cavalo e com freqüências acompanhou um sacerdote às capelas afastadas. Ela mostrou a muitos o caminho para a Igreja e buscava os cristãos afastados. Como enfermeira e missionária era natural que realizasse muitos batismos de emergência, especialmente na maternidade. Mas, temos que realçar, que, às vezes, isto chegou a causar problemas, quando a criança sobreviveu e teve que crescer numa família não cristã.
Colocar-se toda a serviço do próximo era o seu jeito de ser. Assim ela entendeu a sua vocação missionárias. É notável, que, durante os 50 anos no Zululand, nunca aceitou uma viagem à Pátria e raras vezes concedeu-se alguns dias de descanso do seu trabalho. Ser missionária era para ela uma obrigação que não admitiu um compromisso.
Em junho de 1976, na idade de 74 anos, Ir.Reinolda aposentou-se e se retirou de sua maternidade. Recolheu-se no Convento de São Albans, cerca de um kilômetro distante do hospital. Mesmo assim, foi diariamente ao hospital para visitar os doentes e assistir aos moribundos. Tinha um dom singular de consolar as pessoas perto da morte e de prepará-las para a passagem para a eternidade. Graças à sua iniciativa, muitos reconciliaram-se com a Igreja, antes de morrer.
Em 1980, era visível, que a sua própria vida estava declinando. O diagnóstico: câncer nos intestinos. Em agosto de 1980, passou para a enfermaria do Convento de Inkamana. Era penoso para Ir.Reinolda – toda a vida muito ativa – não poder mais levantar-se e fazer as suas rondas. Era mais doloroso do que as dores físicas. Ir. Reinolda faleceu no dia 1º de abril de 1981. Foi incomum o grande número de pessoas que vieram ao seu enterro, no dia 6 de abril, em Inkamana. Entre eles estava o representante do Rei Goodwill Zwelethini, do Zululândia (os costumes dos Zulus proíbem ao Rei de participar de um enterro). A presença do seu representante confirmou a amizade entre Ir. Reinolda e a família real. Com a morte da Ir. Reinolda, a Igreja Católica de Zululândia perdeu uma mui querida e dedicada missionária.
Pouco tempo depois de sua morte, já era largamente conhecido entre o povo, que a Irmã teve aparições de Nossa Senhora. Baseado nas suas anotações pessoais e nos documentos do arquivo da Diocese, podemos anotar os seguintes fatos.
TOP
3. A História das Aparições
Ir. Reinolda teve uma primeira extraordinária aparição no dia 8 de dezembro em 1954, no fim da exposição do Santíssimo.
„Eu vi duas figuras junto à mesa, que já estava preparada para a santa Missa. Num lado estava uma senhora toda de branco com um longo véu branco. Na sua mão direita segurava algo que estava coberto; parecia ser um escudo. No outro lado estava um monge, vestido de preto, levantando as duas mãos como na hora da Consagração, tendo em uma mão algo como uma oferta. Em seguida subiu algo ao céu como incenso. As figuras desapareceram quando o sacerdote vestiu os paramentos. Eu não pude encontrar nenhum sentido nisto tudo. Mas, também não pude me esquecer daquilo que vi. Não muito tempo depois, durante a Comunhão, ficou tudo claro para mim, como se alguém dizesse: „É uma custódia velada“.
Oito meses depois deste acontecimentos inexplicável, Ir. Reinolda teve uma visão como que de Nossa Senhora, à qual várias se seguem. Ela mesma chama estas supostas visões de „Encontros“.
 O primeiro encontro entre Ir. Reinolda e Nossa Senhora aconteceu durante a santa Missa, na capela das Irmãs em Nongoma, no dia 22 de agosto de 1955, quando acabou de receber a Santa Comunhão. Nossa Senhora se apresentou como „Tabernáculo do Altíssimo“ e expressou o desejo de ser venerada sob este título. Ainda expressou o desejo que muitas pessoas se esforçassem para se tornarem Tabernáculos do Altíssimo. Ela ordenou a Irmã que disesse isto ao seu padre e que o revelasse também a outras pessoas. Ir. Reinolda escreveu sobre este encontro: “Logo depois ter recebido a Santa Comunhão, Maria estava na minha frente, pertinho. (Vi tudo dentro de mim) Eu fui levada para uma outra atmosfera. Maria se mostrou numa luz maravilhosa, mais bonita que o sol. Estava vestida toda de branco. Um véu flutuando do alto da cabeça até a palma dos pés. No peito pousava uma grande hóstia, contornada com uma coroa de raios, irradiando vida. Ela era uma custódia viva. Maria pousava em cima do globo da terra. Mãos e pés não vi. Parecia-me entrar em uma nuvem, atraida por Maria, afastada da terra. Eu tinha os olhos fechados, mas eu vi tanta luz que, durante vários dias, fiquei bastante encandeada de tanta beleza e tanta luz.“
O segundo encontro no dia 20 de outubro de 1955 e o terceiro, em 22 de outubro, trouxeram para Ir. Reinolda mensagens semelhantes, mas, ao mesmo tempo, Nossa Senhora impeliu a Irmã a se apressar a dizer isto a todo mundo.
No quarto encontro, em 15 de março de 1956, Nossa Senhora estendeu o braço na direção noroeste (Ngome fica no noroeste de Nongoma) e, segundo Ir. Reinolda, pediu „erguer um santuário para ela, lá onde se encontram sete fontes“. Muitas graças seriam derramadas naquele lugar e mu itas pessoas iriam se converter e reencontrar o caminho para Deus.
Ainda aconteceram mais encontros entre Ir. Reinolda e Nossa Senhora: em 5 de junho de 1956, em 15 de março de 1957 e em 24 de maio de 1957.
Em 8 de dezembro de 1957, após ter visitado uma senhora doente em Ngome, Ir. Reinolda ganhou a certeza de que Ngome seria o lugar onde o santuário deveria ser erguido. Depois de ter conversado com Padre Ignaz Jutz, o Pároco de Ngome, foi encontrado um grande número de fontes. O oitavo encontro entre Ir. Reinolda e Maria aconteceu no dia 17 de agosto de 1958. A Irmã sentiu a necessidade de um quadro de Maria, o Tabernáculo do Altíssimo.
Com a autorização do Bispo Aurelian Bilgeri, de Eshowe, e a colaboração do Arquiabade Suso Brechter, de St. Otília, um pintor de Munique, Josef Aman, pintou o quadro conforme a descrição e as orientações da Ir. Reinolda. Este quadro foi levado para Ngome no dia 1º de maio de 1963. Cedendo às insistências do Padre Ignaz Jutz, o Bispo Bilgeri permitiu ao Irmão Jakob Riedmann construir uma pequena capela em Ngome. Pater Ignaz Jutz celebrou a Bênção da Capela, na Solenidade de Pentecostes, em 29 de maio de 1966.
A primeira romaria a Ngome aconteceu em 15 de março de 1966. As pessoas que participaram eram na maioria de Nongoma. Depois, o bispo Bilgeri não permitiu mais romarias a Ngome.
Ir. Reinolda escreveu no seu diário sobre seu nono encontro com Maria: „Era noite, era 28 de março de 1970. Na noite anterior, eu tive um sonho terrível com o demônio. Alguém me acordou do sono. Tudo era luz. Quem estava ao meu lado? Maria, o Tabernácula do Altíssimo. Ela me abraçou e me consolou e disse: ‚Eu sei de teu sofrimento. Estou contigo. Não te deixo. Eu levo a minha causa até a vitória’. Antes de me deixar, ela disse: ‚Olha para o outro lado’. Ali estava o Arcanjo Miguel, de couraça e uma lança nas mãos. À sua direita estava um Querubim todo de branco com as mãos em cruz sobre o peito. Após um ou dois minutos desapareceram. E toda a luz desapareceu. Que consolo para mim!“
O décimo e último encontro realizou-se na pequena capela em Ngome, em 1971, provavelmente no domingo, dia 2 de maio. „Depois da Missa, voltei com algumas mulheres para rezar com elas diante do quadro do Tabernáculo do Altíssimo. De repente, percebi que Maria estava toda viva. Ela deu alguns passos para frente e era sobremaneira bonita. Na minha susrpresa exclamei: ‚Vejam, Maria!’. Eu estava convicta de que as mulheres também viram Maria. Eu fiquei sobremaneira estupefata e me afastei em silêncio.“
TOP
4. Ngome hoje
Após longos estudos e exames feitos por ordem da diocese, a veneração de Maria sob o Título „Tabernáculo do Altíssimo“ foi permitida em Ngome.
Em 13 de novembro de 1990, Padre Michael publicou numa circular:
“O Santuário de Maria em Ngome é um sinal da presença de Nossa Senhora na vida da Igreja local. A devoção à Nossa Senhora de Ngome será uma oportunidade de trabalhar e rezar pela paz em nossa terra.“

mais: www.ngome.co.za
TOP
 Sr. Mechtild Kuhl OSB 10 de Abril de 1941 – 21 de Abril de 2005
"ELE reatará tudo “
Este lema Ir. Mechtild deixou gravar na Aliança de sua Profissão Perpétua, e foi desta forma que ela compreendeu toda a sua vida. Este lema cumpriu-se pela última vez nas primeiras horas do dia 21de Abril de 2005, quando ELE em sua impenetrável determinação veio buscar nossa querida Ir. Mechtild, para a vida eterna, sem dar a nós, outras irmãs, qualquer prévio aviso.
Tendo nascido no tempo pesado da guerra aos 10 de Abril de 1941, em uma família grande e muito amada por ela, Ir. Mechtild cresceu com seis irmãos e irmãs em sua também, muito amada aldeia Westerholt, na Westphalia. Por toda sua vida, ela permaneceu em estreito contacto com a família, viveu e sofreu o destino dos seus pais e irmãos, especialmente daqueles que seguiram antes dela para a eternidade. Sua família também manteve contacto permanente com ela, acompanhando-a, a seu modo, na missão que lhe foi confiada, com muita compreensão e ainda com significativa ajuda em concreto. No correr dos anos, eles enviaram para ela inumerável quantidade de pacotes, cheio de amor, enquanto estes a ajudavam a suportar mais facilmente as privações da sua vida missionária. Também por causa da família, Ir. Mechtild renunciou ir à Pátria neste ano, pensando poder estar presente, no próximo ano nas festas de Bodas de Ouro de casamento de sua irmã. Para a família, foi então a última grande renúncia, eles não puderam mais encontrar-se com ela nem estar presente no seu sepultamento.
A vida de Ir. Mechtild correu no seu modo linear, assim como ela mesma era: uma vez que uma meta foi decidida, não houve mais nenhuma palavra adicional nem grandes discussões em cima disto. De 1947 a 1962, ela concluiu os estudos básicos numa escola da sua cidade natal, depois cursou a Faculdade Técnica para Assistência Social em Soest, especializando-se, depois disto, em Enfermagem Infantil. Aos 15 de Abril de 1963 ela entrou nas Irmãs Beneditinas Missionárias de Tutzing e fez sua Primeira Profissão aos 21 de Outubro de 1965. De 1966 a 1971, aperfeiçoou-se em sua profissão, fazendo o estudo de Enfermagem Geral e Obstetrícia em Colónia. Ela selou sua formação profissional e monástica com a Profissão Perpétua aos 15 de Abril de 1972. Em uma conversa telefónica, dois dias antes de sua morte, ela ainda confirmou dizendo: “Para mim, a Profissão Perpétua foi o acontecimento mais importante da minha vida. Naquele momento, eu sabia claro o que prometi e o que eu queria viver, e isso modelou a minha vida! “
Logo depois de sua Profissão Perpétua, ela foi enviada para a missão em Angola, para Cazombo, uma estação ao lado do Rio Zambeze, no lado leste de Angola, bem no coração da África. Ela seguiu prontamente e com coragem, começando em Portugal com o estudo de um ano do idioma português, uma vez que era uma condição governamental, naquele tempo, para receber o visto de entrar na “província colonial ultramarina Angola”. Aprender um idioma foi sempre uma tarefa pesada na vida missionária de Ir. Mechtild de tal modo que ela sofreu por toda a sua vida, considerando-se uma pessoa fraca na aprendizagem das línguas. Mesmo assim, ela se comunicava com as pessoas em todos lugares, até em dialectos tão difíceis como Mbukuschu ou N'gangela e com certeza não houve diagnostico errado por falta de uma mais fluente comunicação.
Foi de navio, que ela partiu de Lisboa no dia 17 de Março de 1973 para chegar em Luanda / Angola, no dia 1º de Abril. O país do destino foi também o país do grande amor – “Angola - meu amor”. Este era o slogan de propaganda do governo colonial que ela levou no coração e que a acompanhou até a morte. Ela viveu isso com todas as suas consequências e sua fidelidade rectilinear, muitas vezes até teimosa. O amor por Angola lhe trouxe muitas alegrias no cumprimento das suas tarefas mas também dolorosos sofrimentos na convivência da trágica história deste país e seus habitantes.
O começo em Mazombo foi promissor e parecia indo ao encontro dos sonhos da jovem irmã: muito trabalho com a dedicação para com as mães e seus bebés no hospital da estação de Cazombo, uma igreja viva numa tribo feliz. Porém, o desenvolvimento desastroso do país mostrou logo cedo suas sombras. Cazombo, situado no espaço de domínio da UNITA que já naquele tempo, lutava em oposição ao governo colonial, não se pôde manter, devido a lutas intensivas e ataques, de modo que a estação teve de ser fechada, para nossa grande tristeza, em Janeiro de 1975. No final de 1974 Ir. Mechtild passou a Cuchi, nossa missão primogénita de Angola, na Província do Kuando-Kubango no sul, “no fim do mundo” como os angolanos ainda hoje costumam dizer. Ali ela trabalhou muito bem no hospital recém-construído da missão. Sua fama de excelente enfermeira e parteira competente corria pelas redondezas. No entanto, mais uma vez as políticas acabaram inesperadamente com o trabalho dela: a “Revolução dos Cravos”, de 25 de abril de 1974, não só mudou Portugal mas também trouxe às colónias a independência longamente esperada. A hora de Angola chegou no dia 11 de Novembro de 1975 - embora esta hora não veio para paz mas desencadeou uma cruel guerra civil. Já anunciada antes desta data pelos muitos desassossegos sangrentos em todas as províncias, e crescentes confrontos militares entre os três grandes movimentos de libertação ideologicamente tão contrastantes. Às nossas irmãs pouco tempo foi concedido para servir aos pobres e necessitados e isto debaixo das mais perigosas condições. No verão de 1975 a situação ficou tão insustentável que as irmãs, entre elas Ir. Mechtild, tinham de escapar para pouparem suas vidas fugindo pelo sul para Namíbia. Só por causa da companhia de um alto oficial da UNITA é que o grupo de irmãs chegou de um modo aventureiro.
Esta fuga trouxe para Ir. Mechtild uma nova tarefa missionária no Priorado de Windhoek, na estação Andara, trabalhando com a tribo dos Mbukuschu, no Rio Kavango que marca a fronteira entre Angola e Namíbia. Durante os 13 anos seguintes Ir. Mechtild serviu no hospital em Andara, com algumas interrupções em Windhoek. Cursos e treinamentos técnicos avançados na África do Sul enriqueceram a competência profissional da irmã e durante as férias na pátria ela aproveitou as oportunidades para a renovação espiritual. Sua saudade de Angola, no entanto aumentou com os anos e nem as muitas ajudas dadas a refugiados angolanos no norte de Namíbia conseguiram abafar seu desejo de retornar ao país do “primeiro amor.” Assim foi-lhe concedido voltar para Menongue (antigamente Serpa Pinto), no dia 21 de Outubro de 1988 para a nova estação que as irmãs tinham começado a erguer a meio do caminho do ano de 1974, exactamente antes do começo da guerra. O retorno para Cuchi permaneceu impossível, desde que a missão foi destruída e sua área é minada até hoje. Sua saudade satisfeita levou Ir. Mechtild a viver muitas privações, um estilo de vida escasso, esgotamento físico e a confrontação diária inexplicavelmente triste, o encontro com o pobre mais pobre. Ela se comprometeu como pôde, por muitos anos no hospital central da província de Menongue, além de cuidar fora do trabalho do hospital de pessoas pobres e doentes, acima de tudo crianças. Ela teve uma profunda empatia com os bebés famintos e uma grande habilidade para dar o diagnóstico dos pacientes que assistia. Sempre, encontrou medicamento para os casos mais complicados. Sua fama de competência médica era excepcional, os médicos procuraram seu conselho, e muitas pessoas preferiram o tratamento dela do que ir ao pessoal cubano ou norte-coreano. Depois de seu exaustivo trabalho no hospital, muitos doentes e necessitados esperavam pela irmã em nossa casa e ela não se pre ocupou só com o tratamento médico. A preocupação com a situação geral do necessitado também ocupou muito do seu tempo: ali precisava uma cama; lá devia entregar uma manta quente; preparar e distribuir leite para as crianças; procurar comida e roupa – tornaram-se famosas as transfusões do seu próprio sangue com as quais ela salvou a vida de muitas crianças. Nestes anos, Ir. Mechtild doou-se completamente, suas forças físicas diminuíram sensivelmente e ela nunca recuperou de seu esgotamento. Mesmo assim ela estava pronta para novas tarefas. Nos últimos anos, depois que a guerra terminou em 2002, ela planejou e começou assistência médica nas aldeias acessíveis fora de Menongue. As pessoas que vivem por ali não tiveram acesso a exames médicos nem ajuda social por décadas, e estes hoje são realmente os pobres de Angola. No “Dispensário São Bento”, pequena clinica no terreno da casa das irmãs de Menongue, a irmã atendeu muitos pacientes e até o último dia da sua vida ela cuidou ainda de um paciente de malária em casa, mesmo que não estava se sentindo bem.
Tudo isto era “só” amor idealista pela medicina, pela enfermagem infantil, pelo trabalho social? Este serviço foi em seu mais intimo, a dedicação da sua vida, como ela tinha prometido no dia da Profissão Perpétua. Foi assim que ela entendeu sua vida. Esta vocação, esta resposta ela viveu na sua própria “tonalidade”, simples e consequente, sem muitas palavras. O pobre era a meta da sua “missão pessoal” e de seu seguimento de Cristo. No seu Livro de Oficio ela guardou uma palavra de Gertrud von Le Fort que dizia: “O sofrimento da terra suavizou-se porque ele foi amado”. Foi isto que Ir. Mechtild quis realizar com a força de Deus neste lugar insignificante, em seu modesto modo pessoal. Sua compaixão autêntica para com o miserável e o aflito poderia levá-la às lágrimas; em tais ocasiões, seu temperamento era para ela como uma pedra de bloqueio que a impedia de mostrar seus reais sentimentos. Fúria e indignação contra a miséria poderiam prevalecer levando-a a fortes reacções. Ir. Mechtild achou sempre difícil mostrar as próprias emoções ou receber reacções emotivas dos outros e isto lhe causou sofrimento a vida inteira. Ela viveu uma vida extremamente modesta e não queria ser peso para ninguém, de tal forma que não era fácil ajudá-la em seus problemas ou nos dias em que se achava doente. E assim foi, até o último dia da sua vida, quando se sentia bastante fraca por causa de uma forte diarreia e o começo de uma crise de malária. Durante este último dia ela permaneceu na companhia das irmãs e só de tarde foi para o seu quarto. Várias vezes as irmãs a visitaram, trouxeram alguma refeição e finalmente a inspeccionaram novamente na noite cerca das 21 horas. Ir. Mechtild disse que estava bem e não precisava de nada. Ela tinha tomado um forte medicamento de malária que, talvez, seu coração não suportou. Como as irmãs quiseram deixá-la descansar pela manhã, só a procuraram pelas 9h.20 min. do dia seguinte. Que choque terrível quando a irmã foi encontrada morta. Obviamente ela já tinha morrido algumas horas antes, sem agonia, sem luta, tendo deslizado da cama, como se quisesse buscar água potável, porque segurou a garrafa no braço. Sua expressão mesmo no caixão, manteve-se serena, calma, pacifica de modo que se podia imaginá-la dormindo com um sonho bonito. Deus reatou o fim de sua vida, como acreditamos nós, completamente de acordo com o desejo dela. Ela estava preparada para o encontro com o seu Criador. No seu missal, ela guardou num lugar especial um santinho da “cruz da ressurreição” e escreveu na parte traseira com tinta vermelha:
Sua arca aportou na montanha de Deus! Seus “queridos angolanos” a honraram na morte com uma grande e excepcional manifestação de lamento de acordo com a tradição africana, durante três dias e duas noites. Centenas de pessoas vieram dar o último adeus: pobres e doentes, ricos e poderosos. Nove padres celebraram a Missa de Réquiem na tarde do dia 23 de Abril na catedral de Menongue superlotada. Foi uma missa de corpo presente, e depois a grande multidão acompanhou-a para o cemitério, que fica um pouco fora da cidade.
Ir. Mechtild encontrou sua última morada num campo simples reservado para os mortos, no amplo espaço e no silencio de uma paisagem que ela tanto amou durante toda a sua vida.
TOP
 Irmã Armela (Maria) Praeiro de Lima
* 30.09.1932+ 17.07.2004
“Eis aqui o meu servo, que escolhi; o meu amado, no qual minha alma se compraz. Não discutirá, nem gritará, e ninguém ouvirá a sua voz nas praças. Não esmagará a cana quebrada, nem apagará o pavio que ainda fumega.” Isaias, 42,1-3
A Profecia de Isaías acima citada, nós a ouvimos na Missa conventual no dia do falecimento de Ir. Armela, pela manhã, e expressa o jeito de ser de nossa querida Irmã. Quando, algumas horas mais tarde, ela estava entregando a sua alma nas mãos de Deus, nós reunidas em torno do seu leito, rezamos e cantamos “Suscipe me Domino, secundum eloquium tuum et vivam”.
Ir. Armela nasceu no dia 30 de setembro de 1932, no Agreste Pau Santo, Município de Caruaru, no Estado de Pernambuco. Cresceu no meio de 13 irmãos; alguns dos quais faleceram na infância. Foi batizada no dia 11 de novembro do mesmo ano, e recebeu o nome de Maria. Seu pai, Sr. Antônio Praeiro de Lima, era agricultor. Ele e sua esposa D. Maria José do Espírito Santo, cuidavam de sua família com um espírito profundamente cristão.
Nos escritos da Ir. Armela lemos: “A minha maior alegria foi o dia de minha Primeira Comunhão. Preparei-me com minha mãe. Cedo trabalhei em casa e na roça. Não freqüentei escola, pois não havia escola onde eu morava”.
Aos 16 anos conheceu o nosso Colégio Sagrado Coração, em Caruaru, por intermédio de sua prima Cecília, que ali trabalhava. A pedido dela, e, “com licença dos meus pais”, como escreveu na sua autobiografia, foi aceita para trabalhar pela manhã e estudar a tarde. Maria chegou a concluir a 4ª série Primária. Mais tarde, já no Convento, acrescentou a 5ª série. Também fez um Curso de Arte Culinária. À noite, depois do trabalho, costumava ir rezar na capela. Nestes anos nasceu nela o desejo de ser Religiosa.
No dia 29 de janeiro de 1955, tendo confiado o seu desejo a Ir. Bernadete, foi aceita no Juvenato em Recife, e, em 3 de janeiro de 1956, iniciou o período de formação no Noviciado do Priorado de Olinda. Ela escreve: “Minha segunda alegria foi minha Vestição, no dia 03 de fevereiro de 1958”. Ir. Armela proferiu os Votos Temporários em 05.02.1959 e os Votos Perpétuos em 05.02.1962.
Um mês após os Votos Perpétuos passou um ano em Recife onde vivenciou algumas recordações do seu tempo de Juvenato. De Recife foi transferida para o Colégio Nossa Senhora de Fátima, em Barbalha, Ceará, onde trabalhou durante 15 anos. Foi chamada de volta para a sede do Priorado de Olinda, onde serviu por 11 anos. Depois, sua presença tornou-se novamente necessária no Ceará, onde atuou seis anos na pequena cidade do interior, sem Padre residente, Porteiras e um ano em Palestina, Município de Mauriti, nas mesmas condições. A última estação de sua vida foi Malhada de Pedras, no Sul da Bahia, a partir de 1998, até um mês antes de sua partida para a Casa do Pai celeste.
De todas estas estações podemos dizer com o Profeta Isaías: “Não discutirá, não gritará e ninguém ouvirá a sua voz nas praças”; e também com o salmista: “Sirva ao Senhor com alegria”. Ir. Armela dedicou-se serenamente, com senso de responsabilidade a qualquer trabalho doméstico ou na horta. Por saber cozinhar bem, foi lhe confiada, principalmente, a cozinha. Nas duas Casas de Inserção, Porteiras e Malhada, levou regularmente a santa Comunhão aos doentes. Ao segurar o Pão consagrado nas suas mãos, era visível o seu espírito de adoração. Sua presença e as poucas palavras que dizia confortavam os doentes e idosos.
Na Santa Missa e nas Celebrações ajudava a distribuir a Comunhão, juntamente com os demais Ministros Extraordinários da Eucaristia. Ir. Armela era uma alma eucarística e mariana. Com freqüência, depois das Completas, permanecia longo tempo diante do tabernáculo. Praticava com muita devoção a oração do rosário. O povo a amava e a apelidava de “Irmã do Silêncio”.
Em Malhada de Pedras ajudava os coroinhas a cumprir bem a sua função. Ela soube educá-los para o serviço conscienciosos junto do Altar. Ir. Armela era zelosa e ensinava os outros a fazer tudo bem feito para o Senhor. Era firme no cumprimento do dever. Na hora oportuna dizia a qualquer pessoa: “Assim não pode continuar”. Dizia também na hora certa: “Não se deve falar dos outros”. Curioso é que não gostou de ouvir mal nem de Bush, chegando a dizer: “Eu rezo por ele, para se converter”. Ir. Armela era coerente e praticava o que exigia dos outros.
Ir. Armela amava os pobres e sentia com eles. Tendo a função de fazer a feira, comprava às vezes algo desnecessário, para ajudar a algum feirante que não tinha ainda vendido nada naquele dia. Enquanto as Irmãs se empenharam nos seus múltiplus e cansativos trabalhos pastorais, na cidade e nos sítios, Ir. Armela era o bom “espírito de casa”, no seu jeito lento e cuidadoso, arrumava e guardava a casa e, nas festas, preparava sempre uma surpresa de arte culinária para o jantar. Seu apostolado era visitar as famílias onde tinha idosos e doentes.
Quanto à sua saúde, raras vezes foi ao médico. Suportava dores - também prolongadas - em silêncio. No início de junho deste ano, contraiu uma gripe que não passou. Ficou pálida e a palidez tomou sempre mais a cor amarela, no corpo todo. O médico consultado diagnosticou suspeita de hepatite. Era necessário ir para a Casa do Priorado em Olinda, para receber o devido tratamento. Em Recife foi constatado um carcinoma no fígado e obstrução nas vias biliares em estado avançado. Não pôde fazer mais nenhum tratamento específico. Ir. Armela recebeu alta hospitalar. Para amenizar as dores e a coceira em todo corpo, proveniente da bílis na corrente sangüínea, recebeu acupuntura nas mãos, por um médico coreano, o que realmente deu a Ir. Armela uma qualidade de vida suportável.
Nós não sabemos quanto ela sofreu. Durante todo período de sua doença, Ir. Armela não se queixou de nada e nenhuma vez gemeu. Ficou concentrada em oração, de forma que as enfermeiras leigas se admiraram e comentaram entre si, que ela é uma santa. O mesmo diziam as suas coirmãs, que nos últimos anos conviviam com ela na pequena Comunidade de Malhada de Pedras.
No dia 16 de julho, Ir. Armela entrou em pré-coma. Recebeu mais uma vez a Unção dos Enfermos. Na hora do Pai Nosso, rezado pelas Irmãs que a rodearam, abriu os olhos por uns instantes. Foi lhe aplicado oxigênio. Sua respiração ficou sempre mais fraca e acompanhada por leves gemidos. Sua fisionomia permaneceu tranqüila. Silenciosamente adormeceu às 10h e 55min, do dia 17 de julho de 2004.
Ir. Armela deixou-nos um exemplo de uma vida simples, modesta, serviçal, sem chamar atenção, e era modelo de oração silenciosa. Seus lábios se moviam ao executar os seus trabalhos domésticos. - “Eis aqui a minha serva, que escolhi; a minha amada, na qual a minha alma se compraz.”
Descanse em paz!
Priorado de Olinda, Brasil, em 17 de julho de 2004 A Cronista
TOP
 Ir. EMELINDA MANUNTAG, OSB
9 de junho de 1958 – 10 de agosto de 2005
Quem é a Flor Manuntag , “ATCHI” como era chamada ?Flor Manuntag era a melhor chefe de bairro que a cidade Angeles já teve. Ela cresceu em Santo Cristo, Angeles onde conhecia todos os residentes, jovem ou idoso. Na esquina da Rua Santo Cristo , as crianças se agrupavam em seu redor para pedir sua bênção. No final de semana ela os reunia e ensinava catecismo e a rezar. Levava-os à capela e os iniciava como membros do grupo “Crianças de Maria Imaculada”, mais conhecido como COMI. Ela era como Darna, a cômica heroína Filipina, que salvava todo mundo que estava em necessidade no bairro, na escola onde trabalhava e na sua família. Sabia ouvir quem a procurava quando tinha problemas e tentava ajudá-los.
Era uma sacristã competente. Quinze minutos antes da missa pegava o microfone e com sua voz alta convidava todos com esta frase, “venham agora para a missa”. Nos domingos cuidava de três missas. A primeira era no Sábado às 18:30 na capela do bairro. Ela preparava o altar, os leitores, quem levava as ofertas e ensaiava os cantos enquanto esperava o padre. Se não tivesse leitores ela mesma lia. Era a solista do coro . Em outras palavras ela movimentava tudo na capela do bairro. Era quase como o padre que presidia a missa . A segunda missa era no mosteiro Carmelita no domingo às 06 horas da manhã. Ela participava do coral Imang Daisy Capili, a organista era a mãe de outro membro do coral , Liza, agora Ir. Agnella. Depois da missa, a Sra. Capili, Flor, Liza e todos os membros do coral iam depressa para a igreja da paróquia do Santo Rosário para cantar a missa das 7:30 . A Sra. Capili selecionou Flor como soprano. O motivo principal foi sua assiduidade e compromisso com o coral. Nunca faltava dos ensaios.
Se houvesse ordenação de mulher em Angeles, Flor teria sido a primeira mulher ordenada.Ela tinha muitas qualidades. Era a representante de seu bairro no Conselho Pastoral da Paróquia, tesoureira do COMI, organizadora dos grupos do rosário e líder da oração pelos doentes e agonizantes . Junto com Loida Lugtu, agora Ir. Martha, Flor dava catequese e ajudava arrumar o altar do repouso na Quinta Feira Santa. Um exemplo típico de como ela salvava a situação foi durante o encontro de Jesus e Maria no Sábado Santo. O anjo que devia tirar o véu da mãe dolorosa, teve tontura e imediatamente Flor substitui-o como anjo adulto.Já que Flor não desejava ser a chefe do Santo Cristo ou a Darna dos filmes, a Ir. Virginia, promotora vocacional de Angeles em 1991, relembrou-a que ela ainda não tinha feito seu pedido para o aspirantado. Devido a persistência de Ir. Virginia, Flor deixou seu emprego de 13 anos como contadora da Academia Sagrada Família para entrar com as Beneditinas Missionárias em 1992. Ela tornou-se a Ir. Emelinda, uma combinação do nome de sua mãe e seu nome de batismo, Florida.
Como noviça, Ir. Emelinda foi enviada a Baguio. A Ir. Luisa, que era então juniorista se recorda como ela a ajudou com muita paciência no trabalho de contabilidade. Suas companheiras do noviciado, Irs. Michaela, Leah Ann, Celeste, Fatima, Mary Louise, Josefa, Leticia e Mechtilde chamavam-na de ATCHI o que combinava muito bem com ela pois, era como uma irmã mais velha cuidadosa e carinhosa. Não era somente uma irmã mais velha mas também como uma mãe e amiga um instrumento de união para o grupo todo durante os últimos treze anos. Cada uma está perguntando: “quem vai unir o grupo agora”? Como professa ela foi enviada a Marikina como responsável pela cantina e pessoal de serviços gerais. Beth diz que a Ir. Emelinda colocava disciplina. Ela suspendia por uma semana um funcionário que errava mas ao mesmo tempo, secretamente, enviava biscoitos para suas crianças já que a suspensão significava que a pessoa não trabalhava e não recebia. A Ir. Edigna, que é agora a responsável pela cantina em Marikina diz , “Ela era muito amável e tinha o coração para os pobres.” Fely, outra funcionária da cantina lembra-se disto: “muito trabalhadeira, eficiente, não perdia tempo “era generosa , mas chamava a atenção antes de dar:” Você realmente precisa disso que está pedindo”? Lapu-lapu foi sua última comunidade. Ela tinha uma devoção especial pela Nossa Senhora da Regra, a padroeira da paróquia. Ela ia até a imagem de Nossa Senhora com a Ir. Felicity depois das completas e acendia de novo todas as velas apagadas pelo vento. A Ir. Emelinda era uma alma muito atenciosa Toda vez que ela vinha a Manila de Lapu-Lapu, parava na Casa Champaca em Marikina para cumprimentar as famílias do pessoal de serviços gerais. Ela ia também para a casa de seus amigos em Angeles mesmo para uma visita muito rápida levando pequenos pedaços de Mangorind embrulhado em plástico.
Poderia continuar contando sobre os trabalhos da Ir. Emelinda. Porém desejo parar aqui e convidá-las para agradecermos ao Senhor por ter nos dado Ir. Emelinda durante 13 anos para a vida do ORA et LABORA na Escola do Serviço do Senhor. Ir. Emelinda, muito obrigada e que Deus a abençoe.
TOP
EM MEMÓRIA DE
MADRE MARIA LUCAS RAUCH, OSB
Prioresa Geral de 1957 a 1967 Ela foi chamada à casa do Pai nas Vésperas da Festa de Cristo Rei, no dia 19 novembro de 2005
"Vinde, benditos de meu Pai, tomai posso do Reino que vos está preparado desde a criação do mundo" (Mt. 25:34)
Estas palavras de boas-vindas de Jesus certamente saudaram Madre Maria Lucas quando ela entrou na corte divina para encontrar-se com seu Rei e Senhor.
Eva Rauch nasceu no dia 11 de outubro de 1906 em Gruben, bairro de Hochstadt, da Diocese de Bamberg, Alemanha. Seu pai era Johann e sua mãe Dorothea Vogel. Eva foi a terceira de 12 filhos, 3 meninas e 9 meninos. Três dos 9 filhos morreram muito cedo e duas das filhos se tornaram religiosas, Ir. Leobalda (Congregação do Sagrado Coração de Jesus) e Madre Ma. Lucas, revelando que Eva veio de uma família muito religiosa. Por causa da numerosa família, Eva foi educada por um tio e uma tia amorosos que cuidaram bem dela até que terminasse os estudos de medicina em Würzburg, onde passou nos exames Estatais em 1933.
Querendo tornar-se Irmã missionária, Eva veio para Tutzing e estudou na escola da Missão durante dois anos. Viu seu desejo realizado, quando, no dia 9 janeiro de 1935, entrou no convento das Irmãs Beneditinas Missionárias em Tutzing. Dois anos depois, no dia 24 abril de 1937, emitiu os seus primeiros votos como Irmã Beneditina Missionária. Sendo médica, recebeu o nome de Maria Lucas. Três meses mais tarde, no dia 16 julho de 1937, foi enviada a Raeville, Nebraska, Estados Unidos da América. No dia 25 de junho de 1940 consagrou definitivamente sua vida como Irmã Beneditina Missionária em Raeville.
Durante 7 anos Ir. Maria Lucas trabalhou como médica em Lynch, e em 1945 foi designada Prioresa de Norfolk. Pará poder trabalhar como médica nos Estados Unidos, Ir. Maria Lucas teve que naturalizar-se cidadã americana. No dia 16 de maio de 1944 recebeu o passaporte americano que reteve até a sua morte. No dia 9 de dezembro de 1947 ela foi chamado para servir na missão do Priorado de Ndanda. Durante dez anos serviu como médica no hospital do Priorado de Ndanda, tratando muitos nativos que precisaram de cuidados médicos e cirúrgicos. Além do seu trabalho no hospital, era Sub-Prioresa durante 5 anos, e em 1955 foi eleita Prioresa, novamente, mas somente por dois anos.
Em 1957 foi chamada a Grottaferrata como delegada ao Capítulo Geral. Pela providência de Deus foi eleita Madre Geral até 1967. Durante esses dez anos de grande responsabilidade, Madre Maria Lucas enfrentou com profunda fé os desafios e as exigências do seu cargo. Visitando todas as casas da Congregação, conheceu a internacionalidade das Irmãs e as diferentes culturas e costumes nos cinco continentes. Ela era rígida na observância das Constituições e nos costumes da Congregação. Durante o seu termo de Prioresa General abriu uma casa em Bande, Portugal, em 1961 o que era o começo do nosso atual Priorado em Portugal.
Madre Maria Lucas nunca foi uma pessoa de boa saúde. Fisicamente era frágil, mas sua força espiritual lhe deu a força para superar as dificuldades de líder espiritual de uma congregação internacional. Sua bondade, gentileza, compreensão e o cuidado para com as necessidades de cada uma das Irmãs eram muito evidentes. O que poderia ser considerado o seu lado forte era o poder da oração e da humildade no seu serviço na Congregação. Pelo exemplo ela mostrou seu amor genuíno pela Igreja e de seu amor que se auto-sacrificava pela missão. Fez da sua vida uma viagem direcionada para a total confiança em Deus. Realmente, ela foi uma mulher de oração. Madre Maria Lucas praticou uma simplicidade pessoal às vezes mesmo austera, ficando contente com o absolutamente necessário.. Ela nos deixou um legado pelo testemunho de sua vida. Levou as exigências das Bem-aventuranças muito a sério.
Quando terminou seu mandato de Prioresa Geral, pediram-lhe que servisse como Vigária da Congregação, de 1967 até 1976. Participou, também, em 6 Capítulos Gerais, no último de 1982.
Voltando para a vida comum, Madre Maria Lucas permaneceu em Roma para o resto de sua vida. Serviu à comunidade em Roma como enfermeira, sacristã, professora de idiomas estrangeiros para Irmãs que vieram para Roma, e como bibliotecária. Ajudou, também, na preparação de textos para liturgias especiais. Nos anos posteriores, quando suas forças estavam falhando, dedicou-se ao importante apostolado da oração.
Em 1989 diagnosticou-se que Madre Maria Lucas tinha um coração fraco e a pressão sanguínea alta, estando por algum tempo com anemia. Em 2004 sofreu uma queda que impediu sua habilidade de andar, precisando de usar uma cadeira de rodas para mover-se. Contudo, ainda assistiu aos exercícios comuns na capela e no refeitório. A boa Ir. Ancilla Casoni lhe fez companhia durante o dia. Elas rezaram juntas e escutaram boas conferências no rádio. Como uma das suas vistas estava falhando, Ir. Ancilla lia em voz alta da Bíblia Sagrada para ela, especialmente as leituras de cada dia.
Alguns dias antes da sua morte começou a vomitar depois das refeições e o médico diagnosticou que era causado pela bílis. Estava perdendo o apetite, comendo somente alimentos líquidos. Na manhã do dia 19 de novembro ainda andava e podia falar normalmente. Em verdade, Ir. Ancilla observou que naquela manhã ela falava mais do que fazia habitualmente. À tarde chamou-se novamente o médico e ele disse que sua condição não era boa. Tinha dificuldade na respiração, razão pela qual lhe foi administrado e oxigênio.
Pouco antes das Vésperas algumas Irmãs vieram ao redor de sua cama rezando e cantando o Suscipe e o Salve Regina. Pe. Peter Grand dos Missionários de Mariannhill veio para administrar-lhe, novamente, o sacramento da unção dos enfermos e a sua benção. Parecia que percebeu tudo. Então a comunidade foi para as Vésperas, mas assim que começou a cantar o Deus in adjutorium meum foi chamada de volta para o quarto da Madre Maria Lucas. Desta vez estava evidente que o fim estava próximo. Às 18:20 h, mais ou menos, na presença das Irmãs, Madre Maria Lucas entregou sua alma ao seu Criador. Era como se dissesse, “entrego tudo, pois minha casa está no céu." Durante as primeiras Vésperas da Festa de Cristo Rei, ela foi para casa para encontrar-se com seu Senhor e Rei.
O funeral realizou-se na segunda-feira, 21 de novembro, depois de um dia e meio de Vigília com o corpo presente na grande capela. Três Padres Missionários de Mariannhill, - Pe. Yves La Fontaine, Pe. Wolfgang Zirrlein e Pe. Virgil Heier, - concelebraram o Requiem, durante o qual Pe. Yves fez uma homilia muito bonita que também era como um tributo à Madre Maria Lucas.
A comunidade acompanhou Madre Maria Lucas ao seu lugar de descansando no “Campo Santo”, o Cemitério Alemão no Vaticano, onde ela espera o dia da Ressurreição. Queira ela ser agora nossa intercessora no céu.
R.I.P.
M. Irene Dabalus OSB e todas as Irmãs da Congregação, Casa Santo Spirito, Roma
TOP
Vida e a Morte de nossa
Irmã Letícia (Hilda) de Queiroz Torreão
* 16.04.1917 + 02.01.2006
Ir. Letícia nasceu em 16 de abril de 1917, na pequena cidade São José dos Cordeiros, Município de Cordeiro, no Estado da Paraíba, filha do casal Antero Torreão Junior e Ana Gaudêncio de Queiroz. Após dois meses, foi batizada com o nome de Hilda. Já aos sete anos, ao fazer a Primeira Comunhão, foi crismada, pela dificuldade da presença do Bispo na Região, naquela época. Hilda teve uma infância feliz e despreocupada na fazenda do seu pai, no meu de seus quatro irmãos e uma Irmã. Cursou os primeiros anos numa escola particular muito simples, na mesma cidadezinha. Cedo revelou-se o seu talento de professora nata. Aos sete anos, “fundou” a sua escola de alfabetização para crianças pobres e vizinhas. Com humor, ela contou, que, o rigor da professora mirim fez muitas crianças abandonarem a sua escola, após pouco tempo. Organizou, então, teatros e festinhas com as primas e amigas. Estes episódios de sua infância já nos revelam traços característicos seus que a acompanharam durante toda sua vida: dinamismo, criatividade, determinação, energia e entusiasmo por um ideal.
Por motivo de questões políticas, seus pais deixaram a Paraíba e foram morar, um tempo, em Pernambuco, na cidade de Umburanas, onde Hilda conheceu uma professora Isnar Moura, a quem seu pai cedeu a grande sala de visita para sua escola. Assistindo, às vezes, as aulas dessa professora, formada na Academia Santa Gertrudes, ficava encantada pelo seu ensino e educação. Logo pediu o seu pai que a deixasse estudar naquele Colégio. As fortes resistências dos pais e irmãos Hilda venceu com sua insistência. Em 1933, seu pai a levou para o Internato, onde passou sete anos, só indo para casa nas férias de junho e no fim do ano, quando participou de todas as festas, danças, carnaval, etc., conforme suas próprias palavras.
Em 1940, concluiu o Curso Pedagógico, no fim do ano. Como já havia comunicado em casa a sua vocação, e tendo encontrado grande oposição, sobretudo por parte do pai, resolveu, para mais fácil solução, entrar logo, no dia 1º de abril de 1940, antes de concluir o Curso, tendo como Prioresa Mutter Sigillinde Weber e como Magistra Ir. Lívia Frontull. As colegas do Internato apavoraram-se, devido ao seu temperamento exuberante. Sobretudo, a sua irmã Nise, que em prantos dizia: “Você mata a mamãe, Hilda”. Seu pai ficou tão contrariado que mandou buscar Nise daquele Colégio e ficou por sete anos sem se comunicar com sua filha Hilda. Depois destes anos, seu irmão mais jovem formou-se em Direito e pediu, como presente, que o papai fosse fazer as pazes com sua filha religiosa.
Já em 8 de setembro de 1940, Hilda recebeu o veuzinho de postulante. Como Postulante já começou a ensinar Português no Ginásio e iniciou o estudo de Línguas Clássicas na Faculdade em Recife, indo de ônibus toda tarde. Em 10 de fevereiro de 1942 tornou-se Noviça e recebeu o nome de Ir. Letícia. Em 11 de fevereiro de 1943 fez a sua Primeira Profissão e, após três anos, no mesmo dia, proferiu os Votos Perpétuos.
Notável é que três dias depois de sua Primeira Profissão, com 26 anos de idade, já lhe foi confiado o cargo de Diretora no Colégio Nossa Senhora do Carmo, em Recife, função que ocupou durante dez anos. Nos três anos seguintes, de 1953 a 56, lecionou disciplinas pedagógicas na Academia Santa Gertrudes e, novamente, foi chamada a assumir a função de diretora, desta vez no Colégio Sagrado Coração, em Caruaru.
Voltando para Olinda, em 1960, iniciou o Curso de Orientação Educacional, na Universidade Católica de Pernambuco. Após a conclusão do Curso, trabalhou como Orientadora Educacional no Colégio Estadual de Olinda, durante 13 anos.
Uma nova tarefa esperava a nossa incansável Ir. Letícia, quando o Priorado de Olinda resolveu fundar uma Faculdade de Ciências Humanas. Com entusiasmo e determinação pôs-se a colaborar com a implementação da idéia. Graças ao seu grande conhecimento conseguiu compor um Corpo Docente excelente para os três Cursos e suas nove Modalidades previstas para o início. Era natural, que Ir. Letícia se tornasse a sua primeira Diretora. Em tempo recorde, todas as exigências do Ministério de Educação e Cultura foram cumpridas e, em 1973, a Faculdade abriu as suas portas. Ir. Letícia mesma falou sobre este período, “recebi a incumbência de lutar pela fundação da FACHO. Louvado seja Deus!”
Com a missão plenamente cumprida, pôde, após um ano, entregar a direção da Faculdade a outras mãos e abraçar um campo de ação inteiramente diferente, inteiramente dedicada aos pobres, fora dos muros de uma escola. Foi convidada a iniciar um trabalho de Pastoral entre os trabalhadores da Usina São José, uma hora distante de Olinda, para qual foi toda manhã, voltando à tardinha.
É admirável, aos 72 anos de idade, Ir. Letícia parecia ter encontrado um lugar novo no planeta. Ela escreveu: “Comecei minha Pastoral. Graças a Deus!”. Em primeira instância criou uma equipe de colaboradores entre os funcionários da Usina. De corpo e alma abraçou a evangelização, a catequese e “a partilha de bens” entre os mais de mil moradores pobres. Nesta partilha de bens, não conhecia limites. - Tornou-se conselheira em questões sociais dos donos da Usina, conseguindo acentuada melhoria nas moradias dos trabalhadores e melhor educação para as crianças. Ir. Letícia chegou a conhecer todas as famílias do Engenho de nome e os seus problemas. Benfeitores da Alemanha enviaram inúmeros pacotes com roupa e utensílios domésticos - os quais ela esperava com ansiedade.
Impercebível, mesmo pela própria Comunidade, foi a sua participação semanal com um grupo de voluntários, na distribuição noturna de sopa no Centro de Recife. Ela iniciava a distribuição com oração e pequena catequese para os 40 a 50 pessoas desabrigadas e famintas que ai se juntavam não somente para receber a sopa, mas também para receber uma palavra de amor. Este trabalho a enchia com profunda felicidade, mas não falava disto.
Aos 82 anos de idade, as suas forças físicas se esgotaram, mas de forma alguma a sua determinação. Continuou a manter vivo contato com amigos e ex-alunos. Uma palavra de uma ex-aluna:
“Ir. Letícia, mulher de estatura tão pequena, nascida no Nordeste Brasileiro e de saúde frágil, mas possuidora de uma alma e de ideais imbatíveis, viveu o seu tempo, cumprindo a sua missão, como brava guerreira, sempre com a mente e o coração abertos para receber o imenso contingente de filhos e filhas que a procuravam a fim de se reabastecerem de energia e entusiasmo que emanavam de sua fé em Deus, para combater o bom combate e viverem a vida com alegria”.
Ainda muitos anos depois de ter deixado a direção da Faculdade, ao se encontrar com a atual diretora, pergunta: “Como vai a FACHO, estão também cuidando dos alunos pobres da Faculdade?”.
Não podemos deixar de realçar o seu zelo por vocações sacerdotais. Entusiasmou benfeitores para o sustento do estudo de vários seminaristas, enquanto ela exercia um apostolado espiritual junto a eles, pelo qual, hoje sacerdotes, lhe são profundamente gratos.
Um acidente vascular cerebral acometeu a Ir. Letícia no dia 20 de agosto de 2005, cujas conseqüências se agravarem, apesar de assíduos tratamentos médicos e hospitalares.
Durante a sua vida, Ir. Letícia rezava muito. Assim, no leito de doente, não soltava o terço das mãos, beijando a cruz com visível amor e confiança a Jesus. Não se queixava de nada, apesar de dores. Demonstrou gratidão por cada serviço que lhe fizeram, preocupando-se, inclusive, com o bem-estar das enfermeiras.
Lentamente, distanciou-se da vida, sob dores e sofrimentos. O Novo Ano de 2006 desabrochou, enquanto nossa querida Irmã Letícia se preparava para o encontro com Deus, até que, na noite de 2 de janeiro, sua alma desabrochou no seio do Pai.
O Enterro e as Missas do Sétimo e do Trigésimo Dia foram uma grande demonstração de profundo afeto e gratidão de padres, muitos amigos e ex-alunos. Nos depoimentos comoventes realçaram tanto as grandes qualidades da Ir. Letícia, como também, a sua força de vontade imperiosa e o seu temperamento explosivo – nunca pedia, sempre ordenava, nunca para si, sempre para um fim bom, ao qual ninguém pôde resistir.
O que fizestes ao menor dos meus irmãos, a mim o fizestes.” - Mt 25,40 R I P.
Prioresa do Priorado de Olinda
TOP
Vida e morte de nossa querida
Ir. Carmem Asseff OSB.
23 de fevereiro de 1912 - 18 de junho de 2006
“Em minha vida de religiosa tive muitas provações. Com a fé firme na bondade de Deus, atravessei a dura etapa que foi um meio sublime para me afirmar na vocação. Hoje, agradeço a Deus por tudo o que passei”. Estas palavras são de nossa querida Ir. Carmem e expressam muito bem, embora sinteticamente, sua vida, morte e ressurreição.
Nossa querida Ir.Carmem Asseff nasceu no dia 23 de fevereiro de 1912, em Sorocaba. Foi batizada no dia 5 de junho, do mesmo ano e recebeu o nome de Maria. Seus pais, Elias Asseff e Milena Asseff eram de origem libanesa. A mãe era de religiosidade profunda e desejou tornar-se religiosa. Contudo, encontrando oposição, por parte de seus pais, casou-se. Ela e o esposo vieram morar no Brasil com o seu primeiro filho, que tinha 3 anos de idade. Eram comerciantes. Tiveram 7 filhos(5 meninas e dois meninos). O pai morreu aos 43 anos, quando Ir.Carmem tinha 15 anos e seu irmão mais velho, 18 anos. O mais novo tinha um ano de idade. Com a morte do pai, ela começou também a trabalhar, numa fábrica, para ajudar à mãe e seus irmãos, ainda pequenos. Aos 3 anos de idade, Ir. Carmem recebeu o sacramento da Crisma. Recebeu a primeira Eucaristia aos 11 anos, no bairro de Itavuvu, na Capela de Santa Cruz, preparada pela própria mãe.
Sentiu o desejo de tornar-se religiosa aos 15 anos e ingressou para a nossa Congregação em Sorocaba, quando tinha 20 anos de idade. Com a convivência de boas amigas, conheceu-nos. Sentiu grande alegria ao receber da Madre Prioresa Edwiges Pelts, a licença de entrar no Convento.
No Convento serviu em diversas Comunidades, em diversos trabalhos como cozinheira, sacristã, catequista. Fez sua Primeira Profissão no dia 11 de julho de 1935. Ela ia celebrar este ano 71 anos de vida consagrada. Era uma alma de oração, de um espírito generoso e de sacrifício, muito alegre e pronta para servir onde fosse necessário. No recreio animava a Comunidade com suas piadas e tinha sempre algo a partilhar e tornar nossos recreios animados.
Nos últimos meses deste ano já se percebia seu estado de saúde grave. Sofreu muito em conseqüências de problemas renais. Era uma pessoa de grande fé e soube colocar sua esperança em Deus, mesmo nos momentos mais difíceis. Sempre que as Irmãs e membros do noviciado auxiliares de Ir. Lourdes, na Enfermaria, atendiam-na em suas necessidades, eram recebidas sempre com sorrisos. Com o passar do tempo e o agravamento da doença, tornou-se sempre mais frágil e seus internamentos no hospital tornaram-se mais freqüentes. Hoje, dia 18 de junho, às 8h30m, faleceu no hospital Santa Lucinda, em Sorocaba.
Queremos concluir este breve histórico de nossa querida Ir. Carmem com suas palavras deixadas por escrito: “A minha vida foi levar a cruz de Cristo, com Cristo e em Cristo. E com o Cristo, irei para a eterna glória!” “Cantarei eternamente os Louvores de Gratidão. Cristo faça do meu coração o seu cenáculo aqui na terra para que eu faça do seu, a minha morada lá no céu. Obrigada, Senhor, por tudo o que recebi, tantas graças e alegrias. Obrigada também pelos sofrimentos. Foi por meio deles que eu cheguei mais perto de ti”.
Nós do Priorado Santa Escolástica agradecemos a Deus pelo grande dom que nos deu na pessoa de Ir. Carmem, durante estes 71 anos de consagração e convívio fraterno: seu exemplo de consagrada, sua doação e abnegação a toda prova que nos edificou no dia a dia.
Que o Senhor a acolha em seu reino de glória eterna!
R.i.p.!
Prioresa do Santa Escolástica e Comunidade. Sorocaba, 24 de junho de 2006.
TOP
Breve auto-biografia de nossa querida
Ir. Firmata Asbach OSB
23.12.1911 - 0.07.2006
Nasci no dia 23 de dezembro de 1911, em Königswinter, Arquidiocese de Colônia. Meu pai era funcionário do Correio e faleceu cedo, quando eu tinha 10 anos de idade. Minha mãe educou sozinha os 3 filhos, dos quais eu era a mais velha.
Recebi a Primeira Eucaristia no Domingo “in Albis” , em 1922 e fui crismada, no dia 20.6.1923.
Fiz o Curso primário e Comercial e trabalhei alguns anos numa secção da Prefeitura. Já como criança algo dentro de mim, atraiu-me para a vida religiosa. Quando depois entrei num movimento de jovens, que com entusiasmo seguiu a reforma litúrgica, a vocação tornou-se mais clara e segura. Gostávamos de subir as montanhas, e nas florestas rezar parte do Ofício. Os encontros terminavam, às vezes, com Completas, cantadas em Latim. Em certas noites reunimo-nos para costurar e arrumar pacotes de roupas para a Diáspora. Algumas vezes visitamos a Abadia Maria Laach e vendo os monges numa atitude tão digna e recolhida, senti algo do sacerdócio real dos batizados e quis ser beneditina. Entrei em contato com as Beneditinas enclausuradas, mas quando visitei a Abadia Santa Hildegardis, senti que ali não era meu lugar, sem poder explicar o porquê.
Um sacerdote falou-me de Tutzing e Tutzing me indicou Olpe. Entrei no dia 2 de janeiro de 1935 e fiz o Ano Canônico no recém-fundado noviciado. A primeira Profissão fiz no dia 24 de maio de 1937 na igrejinha da aldeia e depois passei um ano em Tutzing, trabalhando no Celeirariado. No dia 27 de abril de 1938 fui enviada ao Brasil. Sou Beneditina Missionária e compreendo este nome como um programa para ser vivido, pois este nome tem uma dimensão vertical e horizontal: Estar diante de Deus e para a humanidade. Que Ele me ajude a realizar a vocação para a qual Ele me escolheu! Nossa querida Ir. Firmata Asbach faleceu aos 8 de julho de 2006, em Sorocaba, aos 94 anos de idade e 69 anos de vida consagrada, a qual viveu na simplicidade, na doação a toda prova e na fidelidade constante. No Priorado Santa Escolástica, em Sorocaba – SP/ Brasil, trabalhou como Superiora, Ecônoma, Sacristã e Bibliotecária.
TOP
|